Cinematografia Brasileira

VIDEOCLIPES / CAETANO

MEU COCO

por Fernando Young, ABC

Acho que sou um músico frustrado. Sou apaixonado por música e tive a sorte de ser parceiro de trabalho de muitos músicos. Foi uma coisa que surgiu por acaso na minha vida. Já fiz aulas de piano, violão e bateria, toco um pouquinho de cada coisa, mas, na verdade, não toco nada. Se não fosse fotógrafo, provavelmente eu seria músico.

“Hoje eu mando um abraçaço”

Comecei a trabalhar com Caetano Veloso em 2009, quando a gente fez um ensaio fotográfico para a capa da revista Tpm. Ele gostou e me convidou para fazer as fotos de divulgação do disco “Zie Zii”. A partir daí, nossa parceria foi estabelecida e eu fiz também, junto com Paula Lavigne, a direção do DVD ao vivo do álbum, lançado em 2010. Na sequência, em parceria com Gualter Pupo, elaborei o cenário da turnê com Maria Gadú. Em seguida, fotografei a capa de “Abraçaço” e trabalhei também nas imagens de “Dois Amigos, um Século de Música” (ao vivo com Gilberto Gil) e “Ofertório”.

Quando gravou “Abraçaço”, Caetano queria ter um retrato seu na capa, algo que ele não fazia há muito tempo. Era o encerramento da trilogia de discos com a banda Cê, então procuramos também incorporar os braços dos músicos Pedro Sá, Marcelo Calado e Ricardo Dias Gomes. Desenvolvi esse projeto junto com o amigo e designer Tonho Quinta-Feira. A foto foi um sucesso e decidimos usar o mesmo conceito no videoclipe da música “A Bossa Nova É Foda”. Em 2020, assinei a direção de fotografia do documentário “Narciso em Férias”, dirigido por Renato Terra e Ricardo Calil.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“Meu Coco” (a capa)

O projeto de produzir vídeos para todas as faixas de “Meu Coco” nasceu com a foto da capa do disco. Mais uma vez, Caetano queria um retrato e me pediu para pensar em um caminho visual. Nessa época, eu estava filmando a série “Em Casa com os Gil”, da Amazon Prime Video. Nos intervalos das filmagens, comecei a escutar as músicas e a pensar em uma proposta.

Percebi que o álbum “Meu Coco” tinha uma atitude política e um flerte com o mundo do algoritmo bastante interessante e atual. Pirei na ideia do que é real e do que não é real, do que é Caetano e do que são as refrações de Caetano. Levei essa ideia para o conceito do ensaio fotográfico que deu origem à capa. O estúdio de design Cubículo e o cenógrafo Felipe Bardy também participaram. Construímos os cenários de espelhos e fotografamos no meu estúdio.

“Anjos Tronchos”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Decidimos fazer o clipe de “Anjos Tronchos”, faixa do álbum “Meu Coco”, de maneira bastante artesanal, a partir de desdobramentos do conceito da capa. A ideia, criada em colaboração com o diretor Del, era trazer movimento para o que a gente fotografou. Os espelhos se mexem a partir de traquitanas e luz. Não tem efeitos digitais de pós-produção. Você vê Caetano de frente, de lado e de costas ao mesmo tempo. É como um flerte entre a questão do algoritmo e a loucura da cabeça dele.

Filmamos o clipe em um estúdio maior. A gente construiu sete cenários simultâneos e levamos Caetano de um para o outro. Filmamos tudo em duas horas. Chamei Magno Alves, diretor de arte, para adaptar os cenários das fotos para um formato maior e com mais traquitanas.

VISUALIZERS

Entre o “Abraçaço” (2012) e o “Meu Coco” (2021), a indústria da música mudou completamente e surgiram novas demandas, como os visualizers, para abastecer plataformas como o Youtube, o Spotify e outros streamings de música. Aí expandimos as ideias do clipe e Caetano trouxe novas sugestões. O videoclipe foi mais elaborado no sentido de alinhamento com o conceito do disco, enquanto os visualizers trouxeram um desafio maior, que era ilustrar todas as faixas com imagens que as traduzissem.

Alguns são mais ligados às letras, outros a palavras específicas, outros são mais abstratos, é tudo muito misturado. A sincronização dos lábios com a canção era algo que Caetano decidia na hora de filmar, não era algo planejado. Em algumas, ele canta apenas alguns versos. Havia muito pouca decupagem de planos. A maioria dos posicionamentos de câmera nascia na hora. Paula Lavigne assina a direção dos visualizers junto comigo. Ela nos dava muita liberdade para construir tudo. Unimos nossas forças.

Os dez vídeos foram filmados em dois dias de estúdio. Os cenários e luzes foram montados nos dois dias anteriores, a partir de layouts apresentados para Caetano e aprovados. Fizemos tudo com minha ARRI Alexa Mini e um jogo de lentes Cooke S4. Sou muito apaixonado pelo resultado dessa câmera em relação às cores. Usamos meia dúzia de Fresnel de 2000w e dois SkyPanels S-60, mas a gente foi adaptando a cada faixa do disco. Não usei filtros. Havia sempre dois sets prontos para filmar. Quando terminávamos uma música, o cenário da próxima já estava preparado para filmarmos sem intervalos.

Foi superinteressante sentar com Caetano para discutir qual era a melhor tradução para cada faixa. É sempre uma aula ouvir as propostas imagéticas dele. Tudo tem um motivo, nada é gratuito. É uma sorte enorme desenvolver essa parceria. É um privilégio e um desafio. Depois, fui convidado para criar a iluminação dos shows da turnê, que também foi uma experiência extremamente prazerosa a partir de noções de ritmo, efeitos e cores.

Sem samba não dá

Caetano mostrou o disco quase pronto para Pretinho da Serrinha, que ouviu e falou: “Sem samba não dá”, ao perceber que não tinha nenhum samba no repertório. Aí Caetano resolveu compor mais essa música com a participação de Pretinho na percussão. No vídeo, os dois performam juntos, sambando, com uma caixinha de fósforo como instrumento para fazer a marcação. O cenário com espelhos redondos reforça o conceito do álbum como um todo. Tem um pouquinho de cor na luz para trazer um calor, mas é bem simples.

Não vou deixar

Desde o início, eu achava que “Não Vou Deixar” tinha que ser uma performance em plano-sequência. Filmamos com um slider em um carrinho que se aproxima e se afasta. Caetano é muito performático e rende muito para a câmera de forma genial. É uma música política, com muito sentimento. A ideia foi transmitir o que ele está sentindo com o Brasil atual. Filmamos apenas dois takes, com ênfase no rosto.  O título e a letra fazem referência ao dia da eleição de Bolsonaro, quando Caetano estava esbravejando diante da televisão e o Pedro, filho de um casal de amigos, comentou: “O vovô tá nervoso”.

Meu Coco (o vídeo)

O próprio Caetano queria ser filmado de cima para baixo, para mostrar a parte superior da cabeça. Montamos um cenário com o piso branco, que combina com o cabelo e o figurino, para ficar bem neutro. A ideia também era não ter sombras. Travei a câmera em um tubo e fiz movimentos na mão com uma lente Zeiss Compact Zoom 28-80 mm. Fiquei pendurado por cima de uma tapadeira, que também era branca.

Ciclâmen do Líbano

É uma música de amor em homenagem a uma pessoa de descendência libanesa. Para ilustrar, procuramos a flor que dá título à canção, rodeada de plantas, que eu filmei no estúdio através de um pequeno espelho quebrado e meio sujo. Uma das coisas que eu mais gosto é o fio de luz que forma a silhueta de Caetano. É uma técnica fotográfica antiga. Acho linda essa imagem do perfil. Para criar esse efeito, montei seis refletores Fresnel de contraluz apontados para direções diferentes. Me inspirei em uma foto histórica de Ulysses Guimarães feita pelo fotojornalista Orlando Brito, uma imagem que me marcou. Também já usei esse recurso em um ensaio fotográfico com Caetano e Gil, mas com luz azul.

GilGal

Foi Caetano quem teve a ideia de retratar Moreno Veloso com um cubo mágico formado por fotos de Gilberto Gil e Gal Costa. São dois retratos antigos em Preto & Branco feitos pela fotógrafa Thereza Eugênia. O fundo e a luz são bem neutros. Moreno, que é sobrinho de Gil e afilhado de Gal, é muito bom de cubo mágico.

Cobre

Fizemos um efeito de água que nos faz ver Caetano às vezes com mais nitidez e às vezes sem nitidez nenhuma. É mais uma maneira de brincar com o que é real e o que não é, a partir da imagem dele, que é uma figura icônica da cultura brasileira. Magno Alves, diretor de arte, produziu uma traquitana formada por um tubo com furinhos que soltavam água sobre uma placa de vidro, como uma cascata. 

Caetano queria uma pegada alaranjada em referência ao cobre, mas outras luzes coloridas entram em alguns momentos. O fundo é uma cortina que se mexe com o vento de um ventilador. Usamos três fontes de luz diferentes direcionadas para a água, para o corpo dele e para o fundo.

Pardo

A gente também queria trabalhar com a silhueta de Caetano. É mais uma performance de dança, com aproximação e afastamento. Ele não aparece de corpo inteiro, como uma maneira de evitar que o chão apareça. O tecido é um algodão cru, com uma textura bem marcante, que fica quase sempre no foco da lente. A câmera estava no tripé. O conceito é um desejo de ver através de uma camada enigmática.

Noite de Cristal

Fizemos esse clipe com uma cadeira de Lina Bo Bardi. Filmamos em um travelling junto com movimento de zoom. Quando Caetano fez a live no primeiro Natal da pandemia, Bethânia pediu para ele cantar “Noite de Cristal”, uma música dos Anos 1970 dedicada a ela, mas nunca antes gravada. Foi daí que surgiu a ideia de filmá-lo desenhando o retrato dela. Por causa do desenho, foi a filmagem que mais demorou. Enquanto Caetano desenhava, eu ficava ao redor dele com a câmera na mão.

Autoacalanto

É uma música em homenagem a Benjamim, neto dele. Caetano queria cantar deitado, uma ideia difícil para um vídeo musical. Aí propomos uma rede de juta e ele adorou. Bastava deitar-se, sem fazer mais nada. Tem umas plantas atrás para vestir melhor, mas foi tudo feito no estúdio também, nada muito iluminado, para trazer o aconchego de um cantinho. Os planos são fechados para focar mais nele, sem ter muito cenário.

SINOPSE DE “MEU COCO”
O disco “Meu Coco” (2021), de Caetano Veloso, foi lançado junto com vídeos para cada uma das faixas do álbum. Os clipes foram filmados em estúdio com diferentes dispositivos óticos, com efeitos de reflexo e translucidez obtidos por meio de jogos de espelhos, traquitanas, luzes e recursos de câmera. Fernando Young assina a direção de fotografia de 11 dos 12 filmes. Um deles é o videoclipe da canção “Anjos Tronchos” e outros 10 são visualizers lançados em plataformas de streaming.

Direção: Fernando Young, Del (“Anjos Tronchos”) e Paula Lavigne (Visualizers)
Direção de Fotografia: Fernando Young

Fotos making of: Dan Behr
Primeiro assistente de câmera:  Felipe Ovelha
Segundo assistente de câmera: Carlos Nascimento (Carlinhos)
Terceiro assistente de câmera: Elber Xavier
Composição de Imagens: Claudio Peralta
Correção de Cor: Bleach Colorgrading e Tomás Magariños

Gaffer: Marcilio do Nascimento
Assistentes de Elétrica: Jorge Sena e Marcel Farias
Maquinistas: Flavio Bala e Anderson Santana
Assistente de Maquinaria: Eduardo Martins
Diretor de Arte: Magno Alvez
Figurino: Felipe Veloso
Projeto Gráfico: Cubículo 
Estúdio: Polo Rio Cine & Vídeo
Equipamentos de Câmera: Araguaia Filmes

fotos – Dan Behr

MINI BIO

www.fernandoyoung.com.br

Fernando Young, ABC, começou a fotografar profissionalmente aos 16 anos no estúdio Casa da Foto, de Luís Garrido, no Rio de Janeiro. Na sequência, estudou na Escuela de Fotografia de Andaluzia, onde teve contato com o professor português Tiago da Cruz. De volta ao Brasil, atuou como assistente de câmera e fotógrafo de still até 2009, quando começou a assinar trabalhos de cinematografia em comerciais, curtas e longas-metragens como “Sob Pressão” (2016), “Chacrinha” (2018), “Minotauro” (2018) e “Narciso em Férias” (2020), além das séries “Copa Hotel” (GNT, 2013), “Portátil” (Porta dos Fundos, 2016), “26 Poemas Hoje” (Canal Brasil, 2020), “Anitta: Made in Honório” (Netflix, 2020), “Sob Pressão” (Globo, 2017-2022) e “Em Casa com os Gil” (Amazon, 2022), entre outras. Seja em fotos, filmes ou vídeos, seu trabalho sempre teve ligação forte com a música, em colaborações com artistas como Jorge Benjor, Seu Jorge, Alice Caymmi, Majur, Marisa Monte, Marcelo D2, Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown, Alexandre Pires, Baby do Brasil, Gilberto Gil e Milton Nascimento, além de diversos trabalhos com Caetano Veloso. Para diferentes projetos, produziu também retratos artísticos de atores e atrizes como Fernanda Montenegro, Wagner Moura, Renato Aragão, Maria Ribeiro, Chay Suede, Débora Bloch, Beth Faria, Mariana Lima, Fernanda Torres, Betty Lago, Maitê Proença, Fábio Assunção e Fernanda Lima. Com o videoclipe de “Anjos Tronchos” e com a série “Sob Pressão”, foi finalista em 2022 do Prêmio ABC, da Associação Brasileira de Cinematografia.

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