VIDEO CLIPE / IRMÃS DE PAU

SHAMBARALAI

Por Dariely Belke

possibilidades

criativas

Trabalho com audiovisual há onze anos. Neste tempo, sempre observei as oportunidades criativas com uma visão mais completa e que contempla todos os processos de criação de um filme. Acredito que ter trabalhado com pós produção contribuiu para esse olhar criativo, além de somar também na parte técnica. 

Eu amo música. A música sempre esteve muito presente na minha vida, desde a infância. Hoje tenho 29 anos e parte da minha adolescência foi assistindo a MTV. O início das redes sociais também fez parte desse período e passei a acompanhar videoclipes pelo Youtube. Consumi muito esse formato e sempre gostei da liberdade criativa que o clipe traz.

irmãs de pau

A possibilidade de fazer o clipe de “Shambaralai” surgiu através da diretora Mariana Borga. A primeira vez que ouvi a música, já imaginei a força daquele som e potencial para ser um hit.

“Shambaralai” faz uma crítica a sociedade patriarcal em que vivemos. O roteiro foi criado pela Mari junto às Irmãs, que também assinam a direção. É uma crítica à sociedade que enquadra a corpa travesti dentro de um lugar muito limitado a estereótipos, e que coloca a masculinidade como uma potência viril, oprimindo os demais corpos.

É o primeiro clipe que eu assino a Direção de Fotografia que concorreu a uma categoria no MVF. São tantas pessoas que se inscrevem, tantos profissionais e artistas, que para mim foi um prêmio ser finalista.

A construção do roteiro foi criada a partir dessa relação de traduzir a música em imagem. Não tinha como fazer só três situações, queríamos fazer cenas diversas, nada muito parecido entre si em termos de luz ou fotografia. A música tem muitos momentos diferentes e trouxemos nas imagens também essa alternância.

No clipe, a gente traz essas características do que seria, por exemplo, um carro enquanto símbolo de masculinidade, numa colocação bem material. Uma das locações é um desmanche de carros, onde no clipe esses estereótipos podem ser desmanchados.

performance em

frente a câmera 

Gosto de conversar com os artistas. Pra mim, é essencial conversar, entender como o artista quer ser visto e como gosta de ser enquadrado. Em “Shambaralai”, elas queriam principalmente trazer o corpo, as corpas delas, não de uma forma hostil, mas de uma forma, e isso eu falo com as minhas palavras, em que elas fossem livres nesses lugares difíceis de serem acessados por travestis.

As Irmãs de Pau são ótimas em frente à câmera e nos palcos, acho que nasceram para isso. Vi um show delas recentemente, elas têm uma presença de palco incrível. Então não foi nem um pouco difícil filmá-las, difícil foi escolher os momentos de cortar a câmera e ir para a próxima cena. A gente não teve dificuldade na construção da presença em cena. Era enquadrar a câmera e já estavam prontas para rodar.

perto do céu

Não filmamos o clipe em São Paulo. Foi tudo filmado em Itapevi, que é a cidade da Isma, uma das Irmãs de Pau, muito próximo da vizinhança dela, da comunidade onde ela cresceu. Tentamos achar lugares onde pudéssemos criar cenas, mas também trazer o roteiro para as locações.

Em um dos planos, elas estão em cima de uma pedra e atrás tem o fundo prateado de um outdoor. Quando eu e Mari fizemos a primeira visita de locação, aquela rocha me chamou muita atenção. Lembrei da exposição de Tyler Mitchell, um fotógrafo norte americano preto. Uma das obras era um filme projetado no teto, tinham várias almofadas onde podíamos deitar no chão. Um dos filmes mostrava crianças brincando em um balanço, em um plano bem contra-plongée. A gente via detalhes dos pés das crianças, som de risadas e planos bem fechados do rosto delas, que entravam e saíam de quadro, em um dia com muitas nuvens.

Não sei por quê, mas durante essa visita de locação me lembrei dessa exposição, que me tocou muito. Perguntamos se Isma conseguiria subir naquela pedra para gente filmar um plano de baixo para cima. Nessa visita, ela subiu e o dia estava nublado, muito parecido com esse filme da exposição. Parecia que ela estava muito próxima das nuvens, muito próxima do céu. Fiz uma foto e mostrei para Mari como sugestão para filmarmos.

apenas

uma diária

A gente partiu do roteiro e do conceito que foi criado por Mari e pelas Irmãs de Pau, que envolvia essa tomada e apropriação de espaços comumente dominados pela masculinidade. Fomos tentando encontrar elementos que compuseram a ideia, entendendo as limitações e possibilidades de cada cena e locação. O desmanche, por exemplo, era uma locação que a gente achava que funcionava melhor à noite; a pedra queríamos de dia, por ter essa relação delas ficarem próximas do céu.

Elas queriam trazer um balé com outras travestis, então tinham algumas coisas que a gente precisava juntar nesse quebra-cabeça para fazer caber dentro de uma diária só, e dentro das locações que queríamos. Começamos a rodar por volta das 14h e cortamos a câmera mais ou menos à 1h da manhã, com uma média de 10 a 20 minutos para cada plano. As locações eram próximas entre si, pois precisávamos reduzir o tempo de deslocamento entre uma cena e outra.

câmera e lentes

Queríamos uma imagem com um pouco mais de textura, menos sharp. Uma linguagem de zoom misturada com steadicam. A zoom funciona muito bem para alguns momentos, como na pedra e naquele plano em que elas estão com balaclava e se beijam. Pra mim, quando você não quer ver um corte no meio de uma cena, a zoom funciona bem e transmite uma sensação que permite entender onde o plano começa e onde ele termina. Não acho que a zoom entraria tão bem no desmanche, por exemplo, e nem em outros momentos. No campinho de futebol, a gente precisava ter um câmera mais viva, uma câmera que dançasse com as personagens, apesar de mais estabilizada.

Usamos a Angenieux HR 25-250mm, uma lente mais vintage. Usei também um jogo de lentes fixas que também são mais antigas, Zeiss Super Speed 1.3 e as lentes 12mm e 16mm do jogo de Zeiss Standard Speed 2.1. A câmera era a Alexa Mini. Queríamos luz colorida principalmente para a hora do desmanche.

imagens dentro

da imagem

A cena de abertura envolvia uma parte em chroma key e as imagens nas telas das TVs, que seriam aplicadas na pós. Precisamos de uma pré-produção maior e reuniões com a equipe de pós da Pródigo. Rodamos em uma salinha, um anexo que tinha sido recém-construído nesse desmanche, o espaço era bem pequeno. Na outra ponta dessa mesma salinha, fizemos um chroma de 2x2m, só para fazer o sapato girando, que depois foi aplicado. Rodamos também um plate só da parede com o movimento, onde o sapato girando foi aplicado em pós. A equipe de pós da Pródigo deu essa sensação de que nós filmamos o sapato realmente girando. No roteiro, é como se uma delas tivesse jogado o sapato na TV durante o comercial de um carro, que demonstra essa masculinidade e virilidade do homem.

A cena que entra na TV de segurança não foi filmada no mesmo dia. Sabíamos que essa imagem específica seria aplicada na TV pequena com uma textura de TV de tubo, então seria bastante trabalhada na pós. Esse plano não precisava de uma Alexa Mini. Filmamos com um celular Iphone, uma gambiarrinha, com luz natural, sem nada.

pensamento

sobre pós

Dependendo do projeto, tento articular a filmagem pensando nas possibilidades de aplicações e modificações na pós. Se o projeto não tiver previsto um trabalho mais intenso de pós, tento entregar tudo o mais certinho possível. Quando tenho mais liberdade para fazer testes com propostas de cor, me deixo levar por isso, principalmente quando tem um(a) colorista que confio. Nesse clipe, eu sabia que teria o Marcinho fazendo a cor. Fiz com a segurança de que estaria em boas mãos. Em outros projetos, pode existir um receio de arriscar.

Desde a primeira conversa que tivemos com Marcinho, falamos de um clipe em que a cor tem a sua presença, mas sem saturar e puxar demais. Um céu um pouco mais azul, de maneira não exagerada. Na cena da pedra, um outdoor que reluz. No desmanche, as cores aparecem bem. Gosto também de ter um cuidado com o tom de pele das pessoas, não deixar laranja demais uma pele que é branca, ou não clarear demais uma pele que é preta, por exemplo. Manter o tom de pele da pessoa é um briefing que eu gosto de dar para os(as) coloristas. Não gosto de criar uma grande camada de verde ou de azul que pintaria tudo, acho bom separar as camadas.

planos

externos

Na visita de locação que fizemos no campinho, o pôr do sol estava lindíssimo, então estávamos com uma certa expectativa. No dia de filmar, ficou nublado, mas acho que isso faz parte dos prós e contras de usar luz natural. Eu tinha um rebatedor, um isopor com algodão cru que o maquinista carregava acompanhando e seguindo o steady.

Naquele plano em que elas estão de maiô vermelho, tem um plástico estendido no fundo. Queríamos fazer como se fosse um ensaio de moda. A filmagem também era no campinho, o que facilitou o deslocamento. Foi a última cena diurna que a gente fez, no finalzinho do dia. Nessa cena temos ainda um flash, de câmera still mesmo.

A lona transparente foi uma ideia da diretora de arte. Logo pensei que seria bom aproveitar o pôr do sol nesse momento. Usamos o sol de contra para elas pra ter um pouco mais de contraste, e também para que o flash estourasse de forma mais presente.

desmanche

Esse desmanche está em funcionamento – é um lugar de compra e venda de peças de carros. A ideia foi das Irmãs, no desejo de realizar uma crítica a partir desse lugar que guarda e acumula esse símbolo da masculinidade que é o carro. À noite, é totalmente diferente, bem escuro. As cores não aparecem muito, os próprios carros ficam meio sem forma. Esse múltiplo de luzes coloridas acaba também dando mais forma aos objetos ali presentes. As cores acabam sendo uma forma de subverter a estética e o funcionamento desse lugar.

 

Para montar essas luzes, usamos dois kits de Astera que foram quase todos usados para os carros na parte de trás das prateleiras. A equipe de elétrica e maquinária usou o ímã das Asteras, só as fixou na parte de trás, na lataria dos carros mesmo. Na parte da frente, usei um Select equivalente a um Skypanel s60 com octa. Tinha também 4.000w de contra no canto direito lá no fundo, mais duas ou três Asteras na frente, que eu gosto de deixar sempre meio solto, quase na mão, para poder mexer e mudar de posição conforme a necessidade dos planos. Do lado esquerdo do plano frontal, tinha mais um balão de 2.000w, que é onde vem uma outra luz, quase como se fosse de um poste.

Normalmente, gosto de pensar em um mapa de luz em que a gente tem algumas fontes com mais potência, nas quais não mexo muito. É uma luz que vai entrar por uma janela, ou uma luz de poste, ou até a própria luz que está nos carros. Eu gosto de pensar em algumas luzes que não vão ser muito mexidas, que podem até ser posicionadas e montadas antes, para depois a gente vir com outros pontos menores de luz, como a Astera.

No plano em que Vita está no carro, eu estava com o steady, com uma 12mm. A câmera chega super próxima dela. Ali do lado esquerdo eu tinha uma Astera, para dar um pouquinho mais de cor. Aí pedi para entrar uma outra Astera dentro do carro, para ter mais cor na parte de dentro. Colocamos um pouco de fumaça também.

Essa é uma prática que tenho em todos os meus filmes: algumas fontes de luz mais fixas e outras menores na mão, fácil, rápido, que normalmente são a bateria. Se não é uma Astera, é um Aputure MC, por exemplo. São normalmente pequenos, práticos, funcionam para fazer um contra, um bafinho e uma cor, que vamos ajustando rápido, para um plano mais fechado.

cena de dança:

equipamentos de suporte

Eu e a operadora de steadicam subimos em um praticável de 1,5m para transmitirmos a impressão de que a câmera está mais alta. Era uma lente 12mm, o que também amplifica a sensação de altura.

Algumas coisas dos movimentos de câmera foram organizadas e pensadas, mas outras não tivemos controle. Acho muito legal ter coisas que simplesmente acontecem sem a gente esperar. No plano em que uma das meninas sobe em cima do carro e sai andando e desce, com salto e tudo, a gente não sabia que isso ia acontecer, não tinha sido planejado. Foi o primeiro take que a gente fez e saiu daquela maneira, ficou pronto, não precisava rodar mais. Todo mundo ficou em choque com a postura e a força dela. Tem um certo improviso em todos os clipes que eu fiz. Quando fica bom, sai melhor do que se tivesse ensaiado. Acho que vem da liberdade que os clipes trazem.

vogue

A gente queria muito usar uma lente mais angular, como a 12mm, que usei em todas as cenas do desmanche. Queríamos muito mostrar a locação, deixar as personagens mais próximas daquele espaço. Outra coisa que eu queria era que a câmera estivesse perto do Vogue, dar essa sensação de que quem olha está quase que presente na cena. É muito livre, não tem como prever o passo ou quando ela vai cair no chão. A câmera tem que estar pronta. Ter escolhido uma lente mais aberta foi justamente para não perder nenhum desses momentos e conseguir ver tudo.

luz

estroboscópica

O plano da luz estroboscópica foi o mais rápido que rodamos, em menos de cinco minutos. Coloquei a câmera, liguei a lanterna e pronto. Tinha muito pouco espaço de locomoção, então escolhemos por as Irmãs ficarem paradas. Eu queria achar uma fonte de luz ou um efeito que eu nunca tinha usado em nenhum clipe. Comecei a pesquisar, porque gosto de trazer umas certas gambiarras para alguns filmes, o que em publicidade ou outros projetos é mais difícil fazer as pessoas comprarem a ideia.

Procurei por uma lanterna dessas que são mais fortes e que você consegue controlar, tanto abrir e fechar o foco dela ou escolher efeitos. É um LED meio inferior, que não é feito para cinema. Gosto muito de comprar essas coisas, vira e mexe vasculhos sites para ver se acho algo legal para alguma cena, algo que não necessariamente é feito para cinema. Às vezes algum equipamento bem precário pode trazer efeitos muito legais. Uma lanterna que tem esse efeito que pisca um monte, super rápido, e que tem esse círculo de luz, era o que eu queria. É quase como se fosse uma lanterna de alguém que está procurando elas.

campo de terra

O fato de ter mais nuvens deu uma difundida em tudo. A gente chegou ali apenas com um rebatedor e o próprio campo de terra. A Alexa Mini tem uma latitude muito boa, por isso Marcinho conseguiu puxar um pouco desses highlights que estavam muito presentes. Ele conseguiu pintar um pouco isso para trazer mais o céu.

O campinho de futebol, que é muito clássico da quebrada, é um lugar onde, muitas vezes, travesti não é aceita. Isso funciona como mais uma crítica à masculinidade, reiterando o argumento do clipe. Quando começamos a decupar, ficamos com receio de que a câmera estivesse limitando as personagens no enquadramento, mesmo com uma lente mais angular. A ideia era criar uma sensação oposta. A amplitude da cena permite um respiro, uma sensação de liberdade delas, com horizonte, próximas do céu. Acho que, nesses pequenos símbolos, tentamos ter esse cuidado de onde e como enquadramos as Irmãs de Pau.

making of

FICHA TÉCNICA

PRODUTORA: Pródigo Filmes
DIREÇÃO DE CENA: Mariana Borga e Irmãs de Pau
ASSISTENTE DE DIREÇÃO: Diego Dossa
2ª ASSISTENTE DE DIREÇÃO: Amália Agatha
DIREÇÃO DE FOTOGRAFIA: Dariely Belke
1º ASSISTENTE DE C MERA: Jorge Dayeh
2º ASSISTENTE DE C MERA: Lais Teixeira
GMA: Thiago Meggiato
MAKING OF: Felipe Vianna
FOTOS: Eli Bezerra
STEADICAM: Mariana Porto
ELETRICISTA/MAQUINISTA: Grafite
ASSISTENTE DE ELETRICISTA/MAQUINISTA: Paulo Telles, Joel Santos, Jamilson Balu, Matheus Rodrigues, Demetryus Silva e Clayton Carvalho
GERADORISTA: Marcão Lima
DIREÇÃO DE ARTE: Ione Maria e Fernanda Correia
STYLING: Lostea, Brendy e Irmãs de Pau
ASSISTENTE FIGURINO: Lostea Carvalho
BEAUTY: Jazz Lopes e Deivi Muniz
DANCERS: Sandy Mello, Diameyka Odara, Sol Dantas, Dandara Maria e Thaís Santos

FORNECEDORES
C MERA: Marc Films
EQUIPAMENTO ARTE: Electrica Cinema &Video
CONSUMÍVEIS: CameraCar
INFRA PRODUÇÃO COMPLEMENTAR: Inset
GERADOR: Dalia
TRAQUITANA: Steger Versati

COORDENAÇÃO DE PÓS-PRODUÇÃO: Tutu Mesquita e Priscilla Paduano
ASSISTENTE DE PÓS-PRODUÇÃO: Letícia Harumi
MONTAGEM: Victor Cohen

MINI BIO

https://darielybelke.com/

Dariely Belke vive e trabalha em São Paulo. É graduada em Publicidade e Marketing pela ESPM-Sul. Começou a carreira no audiovisual como assistente de pós-produção. Trabalhou em filmes como “Legalidade” (2019), “Raia 4” (2019), “Rasga Coração” (2018) e “Um Corpo Feminino” (curta de 2018). Desde 2019, tem assinado a direção de fotografia de clipes de artistas como Tulipa Ruiz (especialmente o álbum visual “Efêmera Remix”), Drik Barbosa, Carol Biazin, Yas, além de comerciais de marcas como Chevrolet, Avon, Guaraná, Strava, entre outras. Fez também a cinematografia de fashion films, como Misci (Fuxico Lanches na SPFW), e de documentários de curta-metragem como “Volto Antes da Maré Subir: frágeis retratos resistentes ao tempo”, “Fundão: Da Ponte Pra Cá” e a série “Arte na Tecnologia” (2a temporada – 2022). O videoclipe “Shambaralai” foi finalista do prêmio MVF Awards 2022.